quarta-feira, 21 de abril de 2010

-Sabe, sonhei com uma coisa engraçada. Sonhei que eu era uma casa.

-É, uma casa. E todo dia de tardezinha vem uma senhora, coloca uma cadeira em frente e fica olhando o movimento. Há muito tempo que ela espera que algo ou alguém retorne e ela acredita que vai ser naquelas horas. Então ela senta lá e espera.

-É, mas não sei se ela mora lá. Dentro da casa tem uma garotinha, sabe? Ela, sei que mora lá. Chegou do colégio e ficou lá sozinha no quarto. Foi um dia difícil porque a professora perguntou algo, ela não sabia e caçoaram dela. Perto dela tem outra garotinha, mas essa é assim do tamanho de um carocinho de limão. E essa outra fala que vai ficar tudo bem.

-Se eu for mesmo essa casa, então faz sentido as minhas dores de cabeça: vai que estão trocando as telhas, né? E essas pessoas rodiando dentro de mim, ah, fazem efeito também né? Vai que alguém mexe na cozinha e eu tenho uma dor de barriga?

-Não, tô ficando doida não. Ei, ri de mim não. Ah, então tá. Fica aí rindo que eu vou aqui pegar meu ônibus. Tchau.

Wild Horses.

Hoje o "Wild Horses" completa um ano.
Uma pequena explicação: esse blog nasceu do início de uma crise de alma, que, como toda crise de alma,já disse a minha amiga Érica, é fundamentalmente uma crise religiosa. Dia 21 de abril de 2009, iniciei esse blog com um poema sobre Deus, de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

Alberto Caeiro era o poeta das coisas simples, filósofo da vida comum. Do numinoso nas coisas mais simples e por isso mesmo, mais belas da natureza.

Alpha Eridani é uma estrela. Estrela de coloração azul, é a mais brilhante da constelação Eridanus. Uma referência ao Faetonte e o rio Erídano do mito que já postei aqui. O outro nome da estrela, Achernar, deriva da frase em árabe "Al Ahir al Nahr", que siginifa "O fim do rio". Claro, também é uma referência a Saint Exupery. Como o pequeno príncipe, eu quis morar em uma estrela.

Anteriormente, esse blog se chamava Moon River. Essa é uma música, cantada pela Audrey Hepburn, em Bonequinha de luxo. Ela diz "Moon river, wider than a mile, I'm crossing you in style someday...". Passado algum tempo, mudei para "Wild Horses", conhecida música dos Rolling Stones, já ela diz "Wild, wild horses, couldn't drag me away...". Entre outras coisas. Ah, e só agora me lembro: o primeiro título de todos foi "La solitudine". Estar só.

Não juntei essas referências de maneira intencional. Agora que penso nelas e no blog, procuro a linha que as mantém unidas num só sentido.
Sei que esse tempo tem sido um tempo de descobertas para mim. Esse blog é uma tentativa. Mais do que um refúgio, esse blog me serve de bússola e de mapa. Sim, desesperadamente eu quero voltar pra minha estrela. Destino: o fim do rio.

Essa pequena reflexão, encerro com um pedido à minha estrela:
Que sendo pessoa, eu continue tentando. Que no fim do rio, eu tenha paz. Que meus cavalos selvagens não me afastem do meu destino. Que a força que me mantém de pé continue a me guiar. Que no caminho eu saiba aproveitar e viver o que é vida.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Carta pra ele.

Ninguém jamais sonhou assim com você,e ninguém jamais passou por aqui. Mas os meus pés onde pisam fazem a terra tremer.
Debaixo da terra, um redomoinho não me diz o que quer de mim.

Eu sei, eu acho que eu vou conseguir. Não precisa ficar assustado. Não precisa ficar longe de mim. Eu tenho um coração e ele é meu. Não precisa ter medo de mim.

Eu sei que eu tenho medo da luz que há em mim. Eu sei que eu preciso alimentá-la de vez em quando. Acho que eu não tenho medo da luz em si, tenho medo de onde vou chegar. Será?

Com ou sem você, eu sei que eu vou conseguir. Eu acho que eu vou conseguir. Eu só precisava assim de um abraço, de vez em quando.

sábado, 17 de abril de 2010

(Pai. Deus está conosco. E ainda: Deus está comigo)

Alguém trocou meu nome e eu disse "tudo bem".

Mas trocassem meu nome e que eu não mais fosse o bebê zumbi!
Pois eu também fui uma promessa
de 7 anos de espera
com o peso dos meus irmãos não nascidos
(Renascidos em mim?)
Boneca, para o irmão que já estava...
Que de tão quieta na barriga
Assustava minha mãe. "está morta?"
Quando mostraram o mundo, provei:
Estou viva... Chorei...
E ainda provo.

......

Mesmo que às vezes inerte
(Quem sabe cadáver?)
Estou viva e respiro.
Abro os olhos
(Catatônica)
Mas atenta.

.......

Meu nome é pesado, bem sei.
Mas, "Ah! Ele é meu."
Contrariando-me, é comum.
(Assim como meu drama)



Moço,
se puder, não esqueça.

De mim. Do bebê zumbi.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sobre a vida VI

"E tem o seguinte, meus senhores: não vamos enlouquecer, nem nos matar, nem desistir. Pelo contrario: vamos ficar ótimos e incomodar bastante ainda".

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Moça acanhada e simples, Margarida tinha um jeito muito pessoal de olhar para tudo. Virava os olhos de um lado e outro e sua boca morena, que não se abria nunca, dizia mais dela do que ela sabia.

Temia tudo o que via e sua boca se incomodava sempre.
Tentou trocar palavras com a pessoa ao lado, mas sua boca e seu corpo disseram o contrário, e assim Margarida cerrou os lábios.
O silêncio chegou na sala como convidado ilustre e desejável.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

queria uma chuva

Olhou na janela. Gotas pesadas molhavam o vidro. Uma corrente de água forte se formou perto da calçada. Arrastava folhas, arrastava o lixo, lavava tudo.
Queria uma chuva dessa dentro dela.

Mas o sol nasceu e avisou que era outro dia.